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Em três anos de pandemia de covid-19, ciência e vírus evoluíram

Desde que a pandemia de covid-19 começou, em 11 de março de 2020, o sucesso de novas estratégias na contenção do...

Por PH em 11/03/2023 às 10:00:28

Desde que a pandemia de covid-19 começou, em 11 de março de 2020, o sucesso de novas estratégias na contenção do coronav√≠rus SARS-CoV-2 e as mutações que deram a ele maior capacidade de transmissão moldaram altos e baixos que criaram ondas, picos e momentos de relaxamento e tranquilidade.

Nestes três anos, o coronavírus descoberto em Wuhan, na China,

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j√° causou 759 milhões de casos de covid-19, que provocaram 6,8 milhões de mortes, segundo a Organização Mundial da Sa√ļde (OMS). Cerca de 65% da população mundial est√° vacinada com duas doses, e 30% receberam doses de reforço. Esses percentuais, porém, escondem desigualdades: enquanto Américas, Europa e Leste da Ásia estão perto dessa média ou acima dela, menos de 30% da população da África recebeu duas doses da vacinas.

No Brasil, os óbitos se aproximam dos 700 mil, em um universo de 37 milhões de casos j√° diagnosticados. Apesar de a pandemia não causar mais o colapso de unidades de sa√ļde, ela ainda faz v√≠timas: foram 330 na √ļltima semana epidemiológica, segundo dados do DataSUS, o que mostra que ainda é necess√°ria atenção à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento da doença.

No que diz respeito à vacinação, o Brasil possui uma cobertura acima da média do mundo e das Américas, com 82% da população com o esquema prim√°rio completo e 58% com ao menos uma dose de reforço, segundo dados do painel Monitora Covid-19, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A maior parte dessas doses aplicadas é de vacinas de terceira geração, com as tecnologias de vetor viral e RNA mensageiro, uma inovação posta em pr√°tica em massa pela primeira vez com a pandemia de covid-19 e acrescentada ao arsenal da ci√™ncia contra futuras ameaças de sa√ļde p√ļblica.

Quais foram os marcos que moldaram a pandemia?

Ao contar a história da pandemia, o presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Alberto Chebabo, destaca que h√° muitas formas de dividi-la, e um dos principais marcos temporais que se pode apontar é antes e depois da vacinação.

"Em 2020, a gente não tinha vacina, e, em 2021, a gente começou a vacinar muito lentamente no primeiro semestre. Foi o per√≠odo em que a gente teve o maior n√ļmero de mortes e a maior demanda por leitos hospitalares", lembra. "A partir do segundo semestre 2021, quando a gente consegue avançar na vacinação, h√° uma mudança de caracter√≠stica da doença, que passa a ter uma gravidade muito menor do que foi durante esse primeiro per√≠odo, com uma redução importante de mortalidade e no impacto sobre a rede hospitalar."

O infectologista acrescenta que as mudanças do próprio v√≠rus são outra vari√°vel que moldou essa história. A partir de 2021, as variantes do coronav√≠rus, especialmente a Gamma e a Delta, trouxeram um grande aumento de casos no Brasil, que se tornou ainda mais expressivo em 2022, com a chegada da Ômicron. Além de o v√≠rus se disseminar mais r√°pido, os testes se tornaram mais acess√≠veis, o que também ajudou a elevar o n√ļmero de diagnósticos de covid-19, que antes estavam restritos a casos de maior gravidade.

"Uma terceira forma de dividir é que a gente teve, a partir do final de 2022 e in√≠cio de 2023, a possibilidade de ter medicamentos incorporados ao SUS para que a gente possa tratar os casos com pior resposta à vacina", diz Chebabo. "Apesar de a gente querer um tratamento precoce, r√°pido e espec√≠fico para a doença, a gente demorou a achar. Precisou ter um desenvolvimento de novas drogas antivirais e anti-inflamatórias para que a gente pudesse ter a possibilidade de tratar precocemente a doença. Medicações que foram advogadas como salvadoras, como a cloroquina e a ivermectina, realmente não tinham nenhuma função."

Alberto Chebabo diz que novas variantes do v√≠rus levaram ao aumento dos casos de covid-19 - SBI/Arquivo/Divulgação

O conhecimento sobre o v√≠rus, explica o pesquisador, foi outro ponto importante que reduziu a mortalidade da doença. Ainda no primeiro ano da pandemia, a descoberta de como manejar os casos de falta de oxigenação no sangue permitiu um tratamento cl√≠nico mais eficaz nas unidades de terapia intensiva (UTIs). A própria caracterização da covid-19 como doença respiratória mudou ao longo do tempo.

"A gente aprendeu o espectro todo da doença. Não é uma doença apenas com um quadro respiratório agudo, é uma doença com quadros muito mais amplos, com quadros cardiovasculares, com risco de trombose, e com a covid longa. Também tem impactos a médio e longo prazo", explica ele, que cita mudanças neurológicas e também sequelas pulmonares como condições pós-covid que podem necessitar de tratamento especializado.

A chefe do Laboratório de V√≠rus Respiratórios, Exantem√°ticos, Enterov√≠rus e Emerg√™ncias Virais do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Marilda Siqueira, destaca que a colaboração de cientistas de diferentes √°reas se deu de forma acelerada durante a pandemia, e esse foi um fator fundamental ao longo da emerg√™ncia sanit√°ria. O laboratório chefiado pela virologista foi refer√™ncia da OMS

no continente americano e também participou do desenvolvimento de testes diagnósticos em tempo recorde.

"Assim que a OMS disse que se tratava de um coronav√≠rus, um laboratório em Berlim disponibilizou o desenho de como seria o teste diagnóstico PCR. Então, Bio-Manguinhos contactou nosso laboratório e, em colaboração conosco, produziu em menos de um m√™s um kit diagnóstico. Com coordenação do Ministério da Sa√ļde, fizemos um treinamento de todos os laboratórios centrais de Sa√ļde P√ļblica [Lacens], e, em 18 de março, os 27 estados brasileiros j√° estavam com um profissional treinado e com kit para diagnóstico de SARS-CoV-2. Poucos pa√≠ses conseguiram isso, que foi fruto de investimentos de décadas do Ministério da Sa√ļde e Ci√™ncia e Tecnologia em Bio-Manguinhos", conta ela.

Marilda Siqueira destaca import√Ęncia da

colaboração para o enfrentamento da pandemia

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- Josué Damacena/Fiocruz/Divulgação

Da mesma forma que os testes, a pesquisadora explica que as vacinas também foram fruto de investimentos e esforços cumulativos, o que desmonta a fal√°cia de que foram produzidas "r√°pido demais". "Isso aconteceu em um curto espaço de tempo porque j√° v√≠nhamos com experi√™ncias e conhecimento cient√≠fico acumulado de décadas. Imagina se a introdução do coronav√≠rus tivesse sido h√° um século, como aconteceu com a gripe espanhola. Teria sido arrasador, porque as ferramentas não estavam naquele momento prontas como estavam neste momento, em 2020. O uso dessas ferramentas que a humanidade vem desenvolvendo foram pontos cruciais para diminuir o impacto da pandemia em um ano."

Maior colapso sanit√°rio e hospitalar

Manaus (AM) -

Funcion√°rio do Cemitério Tarumã na cidade de Manaus, abre uma cova para mais uma vitima do covid-19 . Foto:

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Altemar Alcantara/Semcom/Prefeitura de Manaus

O virologista da Fiocruz Amazônia Felipe Naveca conta que, assim como a agilidade e articulação dos pesquisadores, a capacidade de transmissão do coronav√≠rus foi crucial para determinar as diferentes fases da pandemia. Desde sua descoberta, no fim de 2019, o v√≠rus impressionou pesquisadores com seu potencial de disseminação, chegando a todos os continentes em poucos meses. Conforme o n√ļmero de infectados cresceu, aumentou também a pressão seletiva sobre o v√≠rus, que sofreu mutações para escapar do sistema imunológico das pessoas j√° infectadas e continuar se multiplicando.

"As variantes que tiveram maior sucesso e suas linhagens, ou eram mais transmiss√≠veis, ou escapavam mais do sistema imunológico, ou as duas coisas", define Naveca, que liderou o grupo respons√°vel pelo sequenciamento da variante Gamma, no Amazonas, causadora do pior momento da pandemia no Brasil.

Foi a variante Gamma que causou as infecções durante o colapso hospitalar no Amazonas em janeiro e se espalhou no pa√≠s nos meses seguintes a ponto de lotar hospitais em todas as regiões ao mesmo tempo. Menos de 15% da população estava vacinada com a primeira dose naquele momento, e o Brasil chegou a ter mais de 3 mil mortes por dia entre março e abril de 2021, quando enfrentou o maior colapso sanit√°rio e hospitalar de sua história, segundo o Observatório Covid-19, da Fundação Oswaldo Cruz.

Desde 2022, entretanto, as descendentes da variante Ômicron dominam o cen√°rio epidemiológico. "Do v√≠rus ancestral à Ômicron foi um salto muito grande. Inclusive, algumas teorias sugerem que esse v√≠rus ficou evoluindo de uma maneira silenciosa em alguns pa√≠ses com menor vigil√Ęncia. Pode ser que ela tenha circulado de maneira silenciosa no continente africano, e quando se detecta a Ômicron, ela j√° era muito diferente de todas as que a gente conhecia."

Para Renato Kfouri, houve contapropaganda

de vacinas no governo Bolsonaro -

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Sarah Daltri/SBIm/Divulgação

O sucesso da variante Ômicron em escapar da imunidade faz dela um marco na pandemia, na visão do vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, que concorda que o outro grande marco é a proteção coletiva obtida com as vacinas, a partir de 2021.

"A gente tem tr√™s momentos na pandemia. Um momento sem vacina; um momento com vacina antes da Ômicron, em que a proteção era mais elevada, inclusive contra as formas leves da doença; e um momento pós-Ômicron, em que a perda da proteção contra as formas leves aconteceu, mas foi conservada a proteção contra as formas graves da doença. Hoje, os vacinados continuam muito bem protegidos dos desfechos mais graves, mas não conseguem estar protegidos contra a infecção."

O que poderia ter sido diferente?

O Brasil é o segundo pa√≠s do mundo que contabiliza mais v√≠timas da covid-19, apesar de ter a quinta maior população mundial. A mortalidade da doença, medida em óbitos por 100 mil habitantes pela Organização Mundial da Sa√ļde, também atinge no pa√≠s uma média desproporcional: quase quatro vezes maior que a média mundial.

Para o epidemiologista e professor da Universidade de Illinois Urbana-Champaign, nos Estados Unidos, Pedro Hallal, comparar a mortalidade no Brasil com a média mundial requer uma série de ponderações –

e elas podem ser ainda mais desfavor√°veis para o pa√≠s. O cientista é coordenador-geral da pesquisa Epicovid-19, que busca medir a preval√™ncia do coronav√≠rus e avaliar a velocidade de expansão da covid-19 no pa√≠s.

Hallal explica que a população brasileira é, em média, mais jovem que a mundial, o que faz com que haja um percentual menor de pessoas no grupo de risco da covid-19. Além disso, o Brasil é um pa√≠s de renda média que tem um programa nacional de vacinação muito superior ao da maioria dos pa√≠ses, e um sistema de sa√ļde p√ļblico e universal com capacidade de realizar atendimentos de alta complexidade, como os casos graves de covid-19. Em relação às subnotificações de outros pa√≠ses que possam puxar a média mundial para baixo, o epidemiologista argumenta que a literatura j√° constru√≠da sobre a covid-19 mostra que as mortes são muito menos subnotificadas do que os casos.

Professor

Pedro Hallal diz que erros do Brasil no enfrentamento à covid-19 vieram desde o começo da pandemia

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- Divulgaç?o

"Eu acho justo, por conta de todas essas explicações, dizer que o Brasil tem, no m√≠nimo, quatro vezes mais mortes do que deveria ter", diz Hallal, que enviou um estudo com essa metodologia no formato de carta ao editor para a revista The Lancet, um dos mais importantes periódicos cient√≠ficos do mundo, e também apresentou o mesmo levantamento na Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia, no Senado Federal. "Não estou comparando se o Brasil fosse o exemplo do melhor enfrentamento. Se o Brasil tivesse sido apenas mediano, ele teria 184 mil mortes, e não 699 mil."

O especialista destaca que os erros do Brasil no enfrentamento à covid-19 vieram desde o começo da pandemia. Os investimentos em testagem e rastreamento de contatos foram insuficientes, aponta. Além disso,

o governo Jair Bolsonaro apostou em uma estratégia de imunidade de rebanho por infecção, na qual havia a expectativa de que um n√ļmero grande de infectados bloquearia a circulação do v√≠rus em algum momento. "Um erro grav√≠ssimo de quem fez uma leitura equivocada desde o primeiro dia sobre o que que era essa pandemia", classifica. Ele argumenta que houve uma confusão sobre como deveriam ser implementadas as pol√≠ticas de distanciamento social, por parte do governo federal, estados e munic√≠pios.

Comércio fechado na região central da capital paulista, durante a Fase Vermelha da epidemia de covid-19 - Rovena Rosa/Arquivo/Ag√™ncia Brasil

"O Brasil nunca fez um lockdown. O Brasil fez fechamentos seletivos de longu√≠ssima duração, que destru√≠ram não só a sa√ļde p√ļblica, porque não conseguiram impedir a circulação do v√≠rus, como também destru√≠ram a economia do pa√≠s", diz. "A ci√™ncia mostra que, nos momentos mais agudos, é √ļtil fazer um lockdown extremamente rigoroso e curto. A maioria dos lugares do mundo usa tr√™s semanas como refer√™ncia."

O presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Alberto Chebabo, é cauteloso em relação a comparações da mortalidade no Brasil com a média mundial, pelo risco de subnotificações ou confiabilidade dos dados de todos os pa√≠ses. Apesar disso, ele não tem d√ļvidas de que houve um excesso de mortalidade por covid-19 no Brasil.

"Certamente, a gente foi um dos pa√≠ses mais afetados. E a gente errou muito na pandemia, principalmente nos primeiros dois anos. O Ministério da Sa√ļde não teve uma atuação coordenada, deixando a cargo de cada munic√≠pio e de cada estado a implementação de medidas, com uma politização e polarização infundadas que levaram a um n√ļmero muito grande de casos e de óbitos relacionados à não implementação adequada a medidas de controle, principalmente as não farmacológicas [como distanciamento e m√°scaras], que eram as que gente tinha para oferecer no in√≠cio", avalia Chebabo. "Isso fragilizou muito o controle da doença no pa√≠s, aumentando de forma acentuada o n√ļmero de óbitos."

Outro ponto que o infectologista destaca é que houve atraso no in√≠cio da vacinação contra a covid-19 no momento em que a disseminação da variante Gamma causava a fase mais letal da pandemia, com até 3 mil mortes em um √ļnico dia.

"A vacinação contra a covid foi muito lenta e se arrastou durante quase todo o primeiro semestre de 2021, só ganhando força mesmo no segundo semestre", afirma,

lembrando que o pa√≠s demorou a fechar a compra das vacinas de RNA mensageiro, exportadas pela Pfizer. "O Brasil tem capacidade de vacinar até 1,5 milhão de pessoas por dia, e vacinava 10 mil, 20 mil, ou 100 mil, no m√°ximo. A gente talvez tivesse salvado mais vidas."

Para especialistas, demora na vacinação dificultou

combate à

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covid-19 no Brasil -

Rovena Rosa/Agência Brasil

Para o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, além da demora, houve falta de empenho em campanhas de est√≠mulo à vacinação e até contrapropaganda por parte do governo à época. Ele considera que uma mortalidade por covid-19 acima dos pa√≠ses desenvolvidos j√° era esperada para o Brasil, porque isso também ocorre com outras doenças, mas acredita que fatores como os problemas na vacinação agravaram essa diferença.

"Essa poderia ter sido a grande bandeira do governo, que infelizmente trabalhou desfavoravelmente ao uso das vacinas. Atrasou, contraindicou, criou brigas pol√≠ticas com produtores e questões xenófobas, só dificultando o processo."

Kfouri destaca que, apesar disso, o Brasil alcançou uma alta cobertura nas duas primeiras doses, mas não conseguiu repetir o feito nas doses de reforço, que são consideradas indispens√°veis para a proteção contra as cepas Ômicron. O médico avalia que a pandemia foi o ponto de partida do fortalecimento de movimentos antivacina no Brasil, e que as crianças foram as maiores afetadas.

"Pela primeira vez, a gente v√™ pais vacinados com até quatro doses que não vacinaram seus filhos. Em geral, a gente protege os filhos e depois pensa na nossa proteção. De uma maneira geral, isso impactou bastante na pediatria. Apesar de ser algo que é mais seletivo, contra as vacinas covid, acaba respingando nas outras vacinas", afirma. "A pandemia trouxe à luz os grupos contr√°rios à vacinação, que aproveitaram das vacinas contra a covid-19 para disseminar conceitos equivocados e a insegurança na vacinação. Os antivacinistas são muito poucos no Brasil e não prosperavam aqui porque não havia um campo fértil. A covid-19 criou essas condições."

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Fonte: Agência Brasil

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