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Varíola dos macacos: entenda a transmissão, os sintomas e a vacina

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou, há seis dias, a varíola dos macacos como emergência de saúde pública de...

Por PH em 29/07/2022 às 09:47:39
Foto : Divulgação

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A Organiza√ß√£o Mundial da Sa√ļde (OMS) declarou, h√° seis dias, a var√≠ola dos macacos como emerg√™ncia de sa√ļde p√ļblica de interesse internacional. Conhecida internacionalmente como monkeypox, a doen√ßa, end√™mica em regi√Ķes da África, j√° est√° atingiu neste ano 20.637 pessoas em 77 pa√≠ses.

No Brasil, j√° s√£o 978 casos, sendo 744 apenas em S√£o Paulo. Considerando a import√Ęncia da informa√ß√£o para combater o avan√ßo do surto, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) realizou nesta quinta-feira (28) um encontro onde especialistas apresentaram o que j√° se sabe sobre a doen√ßa e também responderam d√ļvidas de participantes presenciais e online.

"Esse v√≠rus nós conhecemos e sabemos como lidar com ele. Temos todos os elementos para fazer sua erradica√ß√£o", disse o médico Amilcar Tanuri, coordenador do Laboratório de Virologia Molecular da UFRJ e consultor do Ministério da Sa√ļde.

Segundo ele, como j√° existem muitos estudos sobre a monkeypox, é uma situa√ß√£o diferente da covid-19, que surgiu como uma doen√ßa nova. No entanto, o pesquisador alerta que o sucesso no combate ao surto depender√° do compromisso do poder p√ļblico.

A monkeypox é causada por um poxv√≠rus do subgrupo orthopoxv√≠rus, assim como ocorre por outras doen√ßas como a vaccinia, a cowpox e a var√≠ola humana, erradicada em 1980 com o aux√≠lio da vacina√ß√£o. O quadro end√™mico no continente africano se deve a duas cepas distintas.

Uma delas, considerada mais perigosa por ter uma taxa de letalidade de até 10%, est√° presente na regi√£o da Bacia do Congo. A outra, com uma taxa de letalidade de 1% a 3%, encontra-se na África Ocidental e é a que deu origem ao surto atual.

No entanto, segundo o médico, o v√≠rus em circula√ß√£o sofreu um rearranjo g√™nico que contribuiu para sua capacidade de transmiss√£o pelo mundo. "Ele teve uma evolu√ß√£o disruptiva. Ele sofreu uma muta√ß√£o dr√°stica", afirmou. O pesquisador afirmou que casos graves n√£o s√£o recorrentes. A preocupa√ß√£o maior abrange os grupos de risco que incluem imunossuprimidos, crian√ßas acima de 13kg e gestantes.

"A taxa de letalidade tem rela√ß√£o com o sistema de sa√ļde local. No surto atual, até o momento n√£o tivemos óbitos fora das √°reas end√™micas. Isso mostra que o v√≠rus da monkeypox é de baixa letalidade", salientou a virologista Clarissa Damaso, chefe do Laboratório de Biologia Molecular de V√≠rus da UFRJ e assessora da OMS.

Transmiss√£o e sintomas

A var√≠ola dos macacos foi descrita pela primeira vez em humanos em 1958. Na época, também se observava o acometimento de macacos, que morriam. Vem da√≠ o nome da doen√ßa. No entanto, no ciclo de transmiss√£o, eles s√£o v√≠timas como os humanos. Na natureza, roedores silvestres representam o reservatório animal do v√≠rus.

"N√£o h√° reservatórios descritos em locais fora da África. Uma das maiores preocupa√ß√Ķes no surto atual é impedir o v√≠rus de encontrar um reservatório em outros pa√≠ses. Se isso acontece, é muito mais dif√≠cil a conten√ß√£o", garantiu Clarissa.

Sem um reservatório animal, a transmiss√£o no mundo vem ocorrendo de pessoa para pessoa. A infec√ß√£o surge a partir das feridas, fluidos corporais e got√≠culas do doente. Isso pode ocorrer mediante contato próximo e prolongado sem prote√ß√£o respiratória, contato com objetos contaminados ou contato com a pele, inclusive sexual.

O tempo de incuba√ß√£o do v√≠rus varia de 5 a 21 dias. O sintoma mais caracter√≠stico é a forma√ß√£o de erup√ß√Ķes e nódulos dolorosos na pele. Também pode ocorrer febre, calafrios, dores de cabe√ßa, dores musculares e fraqueza.

"As les√Ķes s√£o profundas, bem definidas na borda e h√° uma progress√£o: come√ßa como uma mancha vermelha que chamamos de m√°cula, se eleva tornando-se uma p√°pula, vira uma bolha ou ves√≠cula e, por fim, se rompe configurando um crosta", explicou o infectologista Rafael Galliez, professor da Faculdade de Medicina da UFRJ.

Pelo protocolo da OMS, devem ser considerados suspeitos os casos em que o paciente tiver ao menos uma les√£o na pele em qualquer parte de corpo e se enquadrar em um desses requisitos nos √ļltimos 21 dias: histórico de viagem a pa√≠s com casos confirmados, contato com viajantes que estiveram nesses pa√≠s ou contato √≠ntimo com desconhecidos.

Diagnóstico e tratamento

O Laboratório Molecular de Virologia da UFRJ se firmou como um dos polos nacionais para diagnóstico da doen√ßa. O primeiro caso no estado do Rio de Janeiro foi detectado em 14 de junho, cinco dias depois da primeira ocorr√™ncia no pa√≠s ser confirmada em S√£o Paulo. De l√° pra c√°, j√° s√£o 117 resultados positivos no estado do Rio. Outros estados também t√™m enviado amostras para an√°lise na UFRJ.

Essas an√°lises s√£o realizadas em fluidos coletados diretamente das les√Ķes na pele, usando um swab [cotonete estéril] seco. Existe a expectativa de que a popula√ß√£o tenha, em breve, acesso a testes r√°pidos de detec√ß√£o de ant√≠genos, similar aos que foram feitos para a covid-19.

Mesmo nos quadros mais caracter√≠sticos, o exame é importante para confirmar an√°lise cl√≠nica. Um desafio para a detec√ß√£o da doen√ßa é a semelhan√ßa de suas les√Ķes com as provocadas pela varicela, doen√ßa popularmente conhecida como catapora e causada por um v√≠rus de outro grupo. A mudan√ßa de perfil dos sintomas também tem levantado um alerta de especialistas. Na var√≠ola dos macacos as erup√ß√Ķes costumavam surgir mais ou menos juntas e evolu√≠am no mesmo ritmo.

"Come√ßamos a ver casos com les√Ķes √ļnicas, às vezes na regi√£o genital ou anal, às vezes no l√°bio, às vezes na m√£o. E também vemos les√Ķes que aparecem em momentos diferentes, de forma mais parecida com a catapora. Esse padr√£o é diferente do que se estudava sobre monkeypox", disse o infectologista Rafael.

Uma vez detectada a doen√ßa, o tratamento se baseia em suporte cl√≠nico e medica√ß√£o para al√≠vio da dor e da febre. Um antiviral chamado tecovirimat, que bloqueia a dissemina√ß√£o do v√≠rus, j√° é usado em alguns pa√≠ses, mas ainda n√£o est√° dispon√≠vel no Brasil.

Segundo o médico, 10% dos pacientes t√™m sido internados para o controle da dor, geralmente quando h√° les√Ķes no √Ęnus, nas partes genitais ou nas mucosas orais, dificultando a degluti√ß√£o.

Prevenção e vacinas

A vigil√Ęncia para a r√°pida identifica√ß√£o de novos casos e o isolamento dos infectados s√£o fundamentais para se evitar a dissemina√ß√£o da doen√ßa. Pode ser necess√°rio o per√≠odo de até 40 dias para a retomada das atividades sociais. Mesmo que o paciente se sinta melhor, deve se manter enquanto ainda tiver erup√ß√Ķes na pele. "Na catapora, a les√£o com crosta j√° n√£o transmite o v√≠rus. Na var√≠ola dos macacos, essa les√£o transmite", acentuou Rafael.

O infectologista alertou para a import√Ęncia de se evitar contato com as pessoas que integram os grupos de risco. Segundo ele, embora existam poucos estudos de casos envolvendo gestantes, os resultados n√£o s√£o bons. "H√° uma letalidade pedi√°trica alta. Existe o que a gente chama de transmiss√£o vertical, isto é, o acometimento do feto com danos graves: perda das estruturas da placenta e abortos espont√Ęneos. Com o pouco que se sabe, é considerada uma doen√ßa obstétrica grave. Suspeitos de estarem contaminados devem ser orientados a evitar contato com qualquer pessoa que possa estar gr√°vida", alertou.

Os especialistas da UFRJ também observaram que o uso de preservativo n√£o previne a infec√ß√£o, j√° que o intenso contato e a troca de fluidos corporais durante o ato sexual oferece diversas oportunidades para a transmiss√£o do v√≠rus. Por outro lado, h√° ind√≠cios de que as pessoas vacinadas contra a var√≠ola humana tenham prote√ß√£o contra a monkeypox.

Também sabe-se que sistema imunológico desenvolve prote√ß√£o cruzada contra os diferentes orthopoxv√≠rus. Isso significa que quem j√° foi contaminado com a var√≠ola humana ou com a vaccinia, por exemplo, e possivelmente possui imunidade para a var√≠ola dos macacos. Foi com base nesse conhecimento que se criou a vacina antivariólica. Embora voltado para combater a var√≠ola que acometia exclusivamente humanos e possu√≠a uma alta taxa de letalidade entre 30% e 40%, o imunizante foi desenvolvido a partir do v√≠rus da vaccinia, doen√ßa que costuma infectar o gado leiteiro e os ordenhadores.

Com a erradica√ß√£o da var√≠ola, a vacina√ß√£o foi suspensa em todo o mundo por volta de 1980. No Brasil, campanhas mais robustas ocorreram até 1975, mas até 1979 o imunizante era aplicado nos postos de sa√ļde. Os ind√≠cios apontam que quem nasceu antes dessa data e foi vacinado est√° protegido contra a monkeypox. A média de idade dos contaminados est√° abaixo dos 38 anos.

Embora já existam vacinas para ajudar no combate ao surto da varíola dos macacos, não há previsão quanto a uma campanha para imunização em massa.

A OMS orienta que se garanta a prote√ß√£o de profissionais de sa√ļde e pesquisadores laboratoriais. Para os demais grupos populacionais, a imuniza√ß√£o deve ser após a exposi√ß√£o. Segundo a virologista Clarissa, trata-se de usar a estratégia de vacina√ß√£o em anel: s√£o vacinadas pessoas que vivem e que tiveram contato com um paciente positivo na tentativa de bloquear a dissemina√ß√£o do v√≠rus. "Essa vacina funciona muito bem até quatro dias pós-infec√ß√£o", observou.

Clarissa acrescenta que n√£o h√° nesse momento vacina para todos e a produ√ß√£o mundial vai levar tempo. "Os fabricantes n√£o tinham previs√£o de produ√ß√£o para uma doen√ßa que afetasse o mundo todo. A produ√ß√£o era exclusivamente para estoque estratégico de pa√≠ses que tem programas de biodefesa. O Brasil, como v√°rias outras na√ß√Ķes, n√£o tem isso", explicou. Segundo Rafael, estudos j√° mostraram a efic√°cia da estratégia de vacina√ß√£o em anel em determinados cen√°rios de surto.

Perfil dos infectados

Homens com menos de 40 anos representam a grande maioria dos infectados. Estudos no Reino Unido constataram que muitas v√≠timas se declaram homossexuais ou bissexuais. Os especialistas, no entanto, alertam que a var√≠ola dos macacos pode acometer qualquer pessoa e n√£o apenas aquelas do sexo masculino com vida sexual ativa. Mulheres e adolescentes j√° foram diagnosticados com a doen√ßa pelo Laboratório Molecular de Virologia da UFRJ.

O diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, aconselhou esta semana que homens que fazem sexo com homens reduzam, neste momento, o n√ļmero de parceiros sexuais. Ao mesmo tempo, alertou que "estigma e discrimina√ß√£o podem ser t√£o perigosos quanto qualquer v√≠rus e podem alimentar o surto".

Segundo o médico Amilcar Tanuri, a desinforma√ß√£o pode deixar a sociedade despreparada para lidar com o surto. "Isso nos remonta à história da AIDS e do HIV. No come√ßo, ficou um estigma que só atrapalhou a preven√ß√£o da doen√ßa. Isso ocorre porque quando o v√≠rus entra por um grupo inicial leva um tempo até se disseminar para outros grupos. Com o HIV come√ßou assim. Depois se percebeu que os hemof√≠licos estavam com HIV, que as crian√ßas nasciam com HIV. N√£o existe nenhuma evid√™ncia biológica de que o v√≠rus da var√≠ola dos macacos seja espec√≠fico para um sexo. Ali√°s, n√£o sei que v√≠rus tem essa especificidade", finalizou.

Fonte: Agência Brasil

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