S√≥ vacinação pode manter febre amarela longe das cidades

Antes que sanitaristas como Vital Brazil e Oswaldo Cruz liderassem mudanças no cenário da saúde pública no Brasil, no final do século 19 e início do século 20, o país tinha uma fama assustadora no exterior: "Túmulo de estrangeiros".

Por PH em 14/09/2023 às 10:10:55
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Vacinação contra a febre amarela no Rio de Janeiro - Tomaz Silva/Arquivo/Ag√™ncia Brasil

A vacina contra a febre amarela utilizada pela rede p√ļblica é produzida pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) e também pela farmac√™utica Sanofi Pasteur, que fornece tanto para o PNI quanto para as cl√≠nicas privadas. Segundo a Sociedade Brasileira de Imunizações, as duas t√™m perfis de segurança e efic√°cia semelhantes, estimados em mais de 95% para maiores de 2 anos.

Doença não vai desaparecer

Apesar do sucesso no caso da febre amarela urbana, a doença em sua forma silvestre não pode ser erradicada. O v√≠rus causador da febre amarela não depende dos seres humanos para continuar existindo - ele infecta primatas e outros mam√≠feros em florestas, onde é transmitido pelo mosquito Haemagogus sabethes. Esses mosquitos também picam humanos que entram nas matas, e o risco é que, com o retorno dessas pessoas às cidades, elas sejam picadas por mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, que podem fazer o v√≠rus voltar a circular em √°reas urbanas.

Coordenadora da Assessoria Clínica de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Lurdinha Maia diz que cobertura vacinal contra a febre amarela precisa ser mantida em todo o país - Bernardo Portella/ Fiocruz

A coordenadora da Assessoria Cl√≠nica de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Lurdinha Maia, ressalta que, por esse motivo, é preciso que a cobertura vacinal contra a doença seja mantida em todo o pa√≠s, uma vez que o ecoturismo, a pesca, o desmatamento e outros fatores t√™m aumentado o contato entre o ser humano e os mosquitos que transmitem a febre amarela silvestre.

"O Brasil é um pa√≠s end√™mico. Isso significa que a gente não vai acabar com a febre amarela. Ela est√° nas matas. Em 1942, a gente acabou com a febre amarela urbana, mas ainda é um risco, principalmente porque hoje h√° muitas entradas nas matas", afirma.

"Anteriormente, o Programa Nacional de Imunizações preconizava a vacinação em v√°rios estados e dizia que não era obrigatório no Nordeste. Mas, o PNI j√° atualizou o calend√°rio de vacinação e todo o Brasil tem a recomendação de ser vacinado contra a febre amarela."

Ser um pa√≠s end√™mico faz com que alguns pa√≠ses só permitam a entrada de viajantes brasileiros que apresentem o Certificado Internacional de Vacinação e Profilaxia (CIVP), com registro de dose aplicada no m√≠nimo dez dias antes da viagem.

Hemorragias

O v√≠rus da febre amarela demora de tr√™s a seis dias incubado no corpo. Quando a infecção gera sintomas, os mais comuns são febre, dores musculares com dor lombar proeminente, dor de cabeça, perda de apetite, n√°usea ou vômito. A maioria das pessoas melhora em até quatro dias.

Uma pequena parte dos pacientes, porém, evolui para um segundo est√°gio da doença, 24 horas após essa melhora. A febre alta retorna, e a infecção afeta o f√≠gado e os rins. Por isso, um sintoma comum nessa fase é a icter√≠cia ("amarelamento" da pele e dos olhos), urina escura e dores abdominais com vômitos.

Recomendação é de apenas uma dose da vacia contra febre amarela para maiores de 5 anos - Fernando Frazão/Arquivo/Ag√™ncia Brasil

A letalidade entre esses pacientes é elevada, e metade dos que apresentam essas complicações morre em até dez dias. A doença evolui até causar hemorragias graves, com sangramentos a partir da boca, nariz, olhos ou estômago.

Uma dificuldade para os serviços de sa√ļde é diagnosticar a febre amarela em seus est√°gios iniciais. É comum que seja confundida com mal√°ria, leptospirose, hepatite viral, ou outras febres hemorr√°gicas, como a dengue.

Infectologista Elaine Bicudo alerta que febre amarela é ameaça grave de sa√ļde p√ļblica - Arquivo pessoal

Por todos esses motivos, a infectologista Eliana Bicudo destaca que a doença é uma ameaça de sa√ļde p√ļblica grave, e que a vacinação precisa ser objeto de atenção da população.

"Qualquer pessoa não imunizada est√° ameaçada pela febre amarela, porque ela tem alta letalidade. Um n√ļmero bem grande de pacientes vem a óbito."

Contraindicações

A vacina da febre amarela é eficaz e segura, mas utiliza a tecnologia do v√≠rus atenuado, o que significa que restringe seu uso às pessoas com boa capacidade imunológica. O Ministério da Sa√ļde contraindica essa vacina para: crianças menores de 9 meses de idade; mulheres amamentando crianças menores de 6 meses de idade; pessoas com alergia grave ao ovo; pessoas que vivem com HIV e que t√™m contagem de células CD4 menor que 350; pessoas em tratamento com quimioterapia/ radioterapia; e pessoas submetidas a tratamento com imunossupressores (que diminuem a defesa do corpo).

Caso essas pessoas vivam ou precisem se deslocar para √°reas de maior risco de transmissão, é necess√°rio que profissionais de sa√ļde façam uma avaliação de risco-benef√≠cio, uma vez que as complicações ao adoecer podem ser ainda mais graves. Essa avaliação também deve ser feita para a vacinação de pessoas com 60 anos ou mais contra a doença.

"A vacina de febre amarela é um exemplo cl√°ssico de como uma vacina pode controlar uma doença. Esse é um dado histórico. Até 2017, a gente entendia que a febre amarela no Brasil estava restrita a algumas regiões. Mas tivemos alguns surtos relacionados à febre amarela silvestre associados a parques na periferia de São Paulo. Ao entrarem naqueles parques, os homens contra√≠ram a febre amarela", descreve a infectologista.

"A partir desse evento, a gente entende que o Brasil é um pa√≠s end√™mico e que a imunização não deve ser só em √°reas como o Centro-Oeste ou a região amazônica. O Programa Nacional de Imunizações incluiu para todo o Brasil a vacina da febre amarela no primeiro ano de vida."

Além da vacinação, a prevenção da febre amarela deve contar com os esforços para conter outras arboviroses, como a dengue e a zika. Deve-se evitar que √°gua parada fique exposta em lugares p√ļblicos, casas e estabelecimentos empresariais, para que os mosquitos vetores desses v√≠rus não a utilizem como criadouro.

Fonte: Agência Brasil

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