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Na Opas, Jarbas Barbosa alerta para melhor preparo contra pandemias

O sanitarista pernambucano Jarbas Barbosa assumiu, em janeiro, o cargo de diretor da Organização Panamericana de Saúde (Opas),...

Por Valter Manoel Da Cruz Manoel em 11/03/2023 às 13:58:29

O sanitarista pernambucano Jarbas Barbosa assumiu, em janeiro, o cargo de diretor da Organização Panamericana de Sa├║de (Opas), braço da Organização Mundial da Sa├║de (OMS) nas Américas. Entusiasta da sa├║de p├║blica, ele sucede a médica Carissa Etienne, da Dominica, que liderava a organização desde 2012.

Eleito pelos Estados-membros da organização, em setembro do ano passado, Barbosa reforçou, em seu discurso de posse,

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o compromisso com a sa├║de p├║blica para a construção de um mundo mais equitativo e com sa├║de universal para todos.

Durante os primeiros anos da pandemia de covid-19, quando era diretor assistente da organização, o brasileiro liderou os esforços da Opas para apoiar pa├şses das Américas na redução do impacto da emerg├¬ncia sanit├íria em programas priorit├írios de sa├║de p├║blica.

O médico também encabeçou uma força-tarefa para a vacinação contra o v├şrus na região e lançou uma plataforma para expandir a produção de vacinas na América Latina e no Caribe, a fim de reduzir a depend├¬ncia de importações em futuras emerg├¬ncias de sa├║de.

Jarbas Barbosa assumiu em janeiro o cargo de diretor da OPAS. O mandato é de cinco anos - OPAS-OMS/divulgação

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Da sede da Opas, em Washington, nos Estados Unidos, Barbosa conversou com a Ag├¬ncia Brasil, por ocasião dos tr├¬s anos da pandemia de covid-19, declarada emerg├¬ncia em sa├║de p├║blica mundial pela OMS no dia 11 de março de 2020, h├í exatos tr├¬s anos.

Na entrevista, o sanitarista falou sobre ferramentas de combate à pandemia; desigualdades históricas entre pa├şses das Américas; fortalecimento da atenção prim├íria como estratégia de sa├║de p├║blica; lições aprendidas com a covid-19; e um futuro desafiador para a região, j├í que a próxima emerg├¬ncia sanit├íria pode estar à espreita.

Ele também tratou de temas como prioridades da organização, perspectivas e desafios de seu mandato, que vai até 2028.

Confira os principais trechos da entrevista:

Ag├¬ncia Brasil: A prioridade, neste primeiro momento à frente da Opas, é o combate à pandemia de covid-19?

Jarbas Barbosa: É uma das prioridades. Temos que trabalhar com os pa├şses da região para que terminemos a pandemia como emerg├¬ncia de sa├║de p├║blica que causa tanto impacto. Estamos em um momento importante em que temos uma redução [de casos] em todos os pa├şses, de maneira geral. Temos um dos menores ├şndices de transmissão desde o começo da pandemia.

Isso, no entanto, pode se alterar porque pode surgir uma nova variante. É preciso manter uma vigil├óncia epidemiológica muito cuidadosa para identificar qualquer mudança no padrão, ou seja, se h├í um crescimento no n├║mero de casos, buscar identificar o que est├í ocorrendo, fortalecer a vigil├óncia genômica para identificar uma nova variante e, principalmente, vacinar os que ainda não estão vacinados.

Campanhas de vacinação são fundamentais para reduzir casos graves de covid-19 - Marcelo Camargo/Ag├¬ncia Brasil

Ag├¬ncia Brasil: Quais as principais estratégias e ferramentas a serem utilizadas nas Américas para o fim da pandemia?

Jarbas Barbosa: A vacinação é fundamental. As vacinas dispon├şveis hoje não impedem a transmissão. É uma caracter├şstica dessas vacinas atuais, o que faz com que elas não sejam capazes de eliminar completamente a transmissão da doença. Isso leva muito pessoas a ter essa falsa impressão de que as vacinas não funcionam. Dizem: "Eu tomei a vacina e, seis meses depois, tive covid."

A vacina não impede a transmissão, isso é verdade. Mas todos os dados acumulados – e j├í são praticamente dois anos de an├ílise – mostram que elas t├¬m uma capacidade importante de reduzir casos graves e mortes, o que, efetivamente, é com o que a gente mais se preocupa. Quem tem covid vacinado, geralmente, apresenta uma forma leve, que não é muito diferente de uma infecção respiratória.

Agência Brasil: Como o senhor avalia o atual cenário de covid-19 no Brasil?

Jarbas Barbosa: O Brasil, como outros pa├şses da América do Sul, vem tendo um per├şodo de diminuição da transmissão, desde dezembro. A grande preocupação é esse monitoramento di├írio das tend├¬ncias: o que est├í ocorrendo, os casos hospitalares, os leitos de UTI.

Se a gente consegue identificar uma nova variante no começo, as autoridades sanit├írias podem tomar medidas imediatas para fazer com que o impacto seja reduzido. Estamos em um momento, eu diria, muito melhor do que j├í estivemos desde que começou a pandemia, mas a pandemia ainda não acabou.

É preciso muita responsabilidade de todos com a vacinação e das autoridades sanit├írias em manter essa vigil├óncia epidemiológica, trabalhando de maneira sens├şvel, rapidamente identificando qualquer alteração no padrão.

Durante a pandemia de covid-19, a telemedicina se tornou uma opção segura de atendimento em todo o mundo - Marcello Casal JrAg├¬ncia Brasil

Agência Brasil: O sistema de saúde brasileiro dá sinais de que poderia sair da pandemia fortalecido?

Jarbas Barbosa: Acredito que sim. Durante a pandemia, em todos os pa├şses e também no Brasil, houve uma atenção muito grande para o setor da sa├║de. Nunca se falou tanto sobre sa├║de. O desafio agora é fazer com que essa maior atenção se traduza em um fortalecimento mais estrutural do sistema.

Temos uma janela de oportunidade em que nós precisamos responder a todas as fragilidades que a pandemia demonstrou que nossos sistemas de sa├║de t├¬m. Seguramente, é o momento de rever e implantar estratégias que foram utilizadas durante a pandemia e que ajudaram a diminuir os impactos negativos, como um processo melhor de priorização e de agendamento, a utilização de teleconsultas e da telemedicina e, principalmente, o fortalecimento da atenção prim├íria de sa├║de.

Ag├¬ncia Brasil: É poss├şvel aplicar as lições aprendidas com a pandemia para se preparar para futuras emerg├¬ncias sanit├írias?

Jarbas Barbosa: É uma obrigação que nós temos. Não est├ívamos preparados adequadamente para uma pandemia como a de covid-19. Sempre pens├ívamos em cen├írios relacionados a pandemias de influenza, como o H1N1, que se espalha rapidamente, mas não produz tantos casos graves. Outros coronav├şrus, como SARS e MERS, produziram casos graves, mas não se espalharam com velocidade. A covid, infelizmente, reuniu essas duas caracter├şsticas: o v├şrus se disseminava com uma velocidade tremenda e com uma capacidade de produzir casos graves que superava a infraestrutura [hospitalar] dispon├şvel.

Precisamos agora implementar as lições aprendidas. É importante que todos os pa├şses façam uma avaliação rigorosa do que funcionou bem durante a pandemia e do que não funcionou e precisa ser melhorado.

Agência Brasil: Há algum tipo de perspectiva de fim da pandemia ou vamos conviver com ela por mais tempo?

Jarbas Barbosa: São duas coisas diferentes: uma é pandemia, a outra é a emerg├¬ncia em sa├║de p├║blica de import├óncia internacional. Pandemia é quando temos uma epidemia que ocorre em muitas regiões do mundo ao mesmo tempo. Por exemplo, a epidemia de HIV est├í conosco desde os anos 80.

Outra coisa é ter uma pandemia que causa um impacto sanit├írio, social e econômico pesado, como causou e tem causado a covid. Apesar de estarmos em um momento de baixa transmissão, pode surgir uma nova variante amanhã. Enquanto tivermos n├şvel de transmissão por um lado e cobertura vacinal incompleta por outro, acredito que a emerg├¬ncia deve ser mantida. Esperamos que essa tend├¬ncia de redução continue, mas isso vai depender do esforço para conseguir vacinar, inclusive com o reforço, os não vacinados.

Manaus (AM) - Um trator é usado no Cemitério Tarumã na cidade de Manaus, para abrir covas coletivas para as vitimas do covid-19 . Foto:

Alex Pazuello/Semcom/Prefeitura de Manaus

Agência Brasil: Qual a importância da chamada saúde universal em meio a esse contexto de surtos, epidemias e pandemias?

Jarbas Barbosa: É fundamental. Vimos isso claramente durante a pandemia, na diferença de mortalidade, de gravidade. Em um pa├şs onde as pessoas t├¬m que pagar, mesmo que parcialmente, para serem internadas, elas demoram mais para ir ao hospital. É o que explica, por exemplo, a mortalidade bem maior entre os mais pobres quando comparada à de pessoas de classe média e de melhor renda em pa├şses da Europa, da Ásia e nos Estados Unidos.

Mesmo os sistemas universais t├¬m barreiras. Algumas populações mais vulner├íveis t├¬m dificuldade de procurar os sistemas de sa├║de porque não são acolhidas de maneira adequada – o serviço é longe ou a pessoa não pode pagar pelo transporte. É preciso identificar, em cada pa├şs, as barreiras que existem para que os sistemas sejam efetivamente universais.

Ag├¬ncia Brasil: Como enfrentar as desigualdades históricas entre pa├şses das Américas e mesmo dentro de cada pa├şs da região?

Jarbas Barbosa: Essa, infelizmente, é uma das grandes caracter├şsticas da nossa região. A própria covid ressaltou muito isso. Todos os estudos demonstram claramente que os mais pobres tiveram muito mais risco de adoecer e morrer porque vivem em uma situação quase que de aglomeração permanente nas favelas. Muita gente vivendo em casa pequena, sem ambientes arejados. Pessoas que tinham que usar sistemas p├║blicos de sa├║de superlotados, sair de casa mesmo nas épocas de maior transmissão porque não tinham uma rede de proteção social. Temos lembrado muito aos pa├şses e trabalhado com eles para que possamos ter dados subnacionais, como a gente chama, porque, às vezes, a média [de casos e óbitos] do pa├şs não quer dizer nada. Ela, na verdade, esconde desigualdades tremendas.

Linha de produção de vacinas contra a covid-19 na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro - Fernando Brito/MS

Ag├¬ncia Brasil: Quais os principais desafios nas Américas para se garantir acesso r├ípido e equitativo às inovações em sa├║de?

Jarbas Barbosa: Temos alguns problemas j├í bem identificados. Primeiro, o subfinanciamento. H├í um consenso entre quem estuda economia da sa├║de de que um sistema de sa├║de, para garantir acesso universal com qualidade, precisa de pelo menos 6% do Produto Interno Bruto [PIB - soma de todas as riquezas produzidas no pa├şs] como gasto p├║blico em sa├║de. Só temos quatro pa├şses da região, quase seis agora, que estão neste patamar. Todos os outros 29 estão abaixo disso.

[Segundo problema identificado] ainda dependemos muito de importação de insumos farmac├¬uticos, produtos, equipamentos. É muito importante reverter esse quadro e garantir mais capacidade de produção. Estamos trabalhando com os pa├şses com vacinas de RNA mensageiro, tecnologia usada pela Pfizer e pela Moderna. Temos dois projetos aprovados, um no Brasil, com Biomanguinhos e Fiocruz, e outro na Argentina.

Ag├¬ncia Brasil: A atenção prim├íria à sa├║de deve ser o foco central dos sistemas de sa├║de na região?

Jarbas Barbosa: Não tenho d├║vidas sobre isso. A atenção prim├íria tem a capacidade de resolver mais de 80% dos problemas de sa├║de da população, est├í próxima da comunidade, consegue identificar os principais problemas de sa├║de e resolv├¬-los de uma maneira adequada.

Agora, para funcionar bem, ela precisa de dois movimentos importantes. Primeiro, revigor├í-la: se a atenção prim├íria não consegue identificar e controlar a hipertensão e o diabetes, ela não ser├í efetiva. Também é muito importante que essa atenção prim├íria esteja conectada e articulada com os serviços especializados. Ou as pessoas vão continuar preferindo ir à uma emerg├¬ncia e esperar de quatro a seis horas, mas sair com o raio-x, o ultrassom e os demais exames de que precisam, além de serem medicadas. A atenção prim├íria precisa ser resolutiva.

Agência Brasil: Como especialista em saúde pública, o senhor defende uma reforma sanitária brasileira que tenha a saúde como direito universal?

Jarbas Barbosa: A reforma sanit├íria brasileira, que começou nos anos 1970, resultou em uma Constituição e, dentro dela, na Lei Org├ónica da Sa├║de. Ter o direito à sa├║de inscrito na Constituição foi uma vitória important├şssima. O que cabe agora às autoridades sanit├írias, ao Ministério da Sa├║de, às secretarias estaduais e municipais é continuar trabalhando para aperfeiçoar esse sistema. Isso envolve financiamento e regionalização.

Um munic├şpio de 5 mil habitantes não vai fornecer um serviço de tratamento de c├óncer, por exemplo. Mas esse munic├şpio precisa saber para onde os pacientes de c├óncer dele vão. São serviços que podem ser ofertados por grupos de munic├şpios com a participação do estado. Isso poderia racionalizar o uso de recursos e oferecer mais serviços, além de reduzir barreiras.

Ag├¬ncia Brasil: Como a Opas se prepara para um futuro classificado por muitos especialistas em sa├║de como desafiador, permeado por emerg├¬ncias sanit├írias à espreita?

Jarbas Barbosa: Se cada pa├şs não estiver melhor preparado, nenhum de nós estar├í seguro. Quando olhamos as pandemias recentes, h├í um mesmo comportamento: um v├şrus que circula entre animais e que faz mutações o tempo todo, completamente ao acaso.

O conceito de sa├║de ├║nica precisa ser implementado na pr├ítica, com um sistema de vigil├óncia não só sobre doenças que ocorrem em pessoas, mas também sobre o que acontece em animais, com o objetivo de detectar o mais precocemente poss├şvel esse tipo de mudança. Um dos projetos da Opas consiste em fortalecer, em cada pa├şs da região, esse conceito da sa├║de ├║nica, fazendo com que a gente possa aumentar a nossa capacidade de predizer e detectar o mais r├ípido poss├şvel quando h├í uma nova emerg├¬ncia em sa├║de p├║blica começando.

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Fonte: Agência Brasil

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